A disputa entre Mendes e Jayme Campos expõe fissuras profundas, acelera migrações partidárias e redesenha o roteiro político do próximo ciclo eleitoral.
Na política, como na vida, há caminhos que parecem traçados. E, no caso de Mauro Mendes, na eleição de 2026 há uma pedra no seu caminho, no seu caminho há uma pedra e, essa pedra tem nome, história e peso: Jayme Campos, o “Pedra 90”. O cenário, que antes indicava uma transição relativamente previsível, agora se desenha como um jogo de forças, onde cada movimento pode redefinir o futuro eleitoral de Mato Grosso.
Às vésperas de se desincompatibilizar do governo, ainda filiado ao União Brasil, hoje integrante da Federação União Progressista com o PP, Mauro Mendes enfrenta um impasse estratégico. Declaradamente apoiador da candidatura do vice-governador Otaviano Pivetta ao governo estadual, Mendes vê ruir a possibilidade de manter seu grupo político coeso dentro da federação.
A insistência de Jayme Campos em disputar o governo cria uma fissura difícil de conter. Não se trata apenas de vaidade política, mas de capital eleitoral consolidado o que transforma o embate em algo estrutural. Mendes, portanto, se vê diante de uma encruzilhada delicada: permanecer onde não há unidade ou migrar para um novo espaço partidário.
Nesse contexto, alternativas começam a ganhar forma. O Republicanos, legenda de Pivetta, surge como destino natural. Em paralelo, o crescimento do Podemos, liderado regionalmente por Max Russi, amplia o leque de possibilidades. Em um cenário mais remoto, o PRD, associado a Mauro Carvalho, também entra no radar. A permanência na federação, por sua vez, torna-se cada vez mais inviável; não por falta de espaço, mas por ausência de convergência.
Se confirmada a candidatura de Jayme Campos, o efeito será imediato: a fragmentação do eleitorado de direita e centro-direita. Entre quatro pré-candidaturas, três orbitam esse mesmo espectro ideológico, com exceção de Natasha Slhessarenko, do PSD, posicionada mais ao centro-esquerda.
Esse cenário reforça uma percepção já latente: a eleição tende a caminhar para o segundo turno. E, nesse ponto, a divisão deixa de ser apenas um risco torna-se uma oportunidade para reposicionamentos estratégicos, alianças inesperadas e reconstrução de narrativas.
Nos bastidores, o Republicanos já se movimenta. A recente filiação do deputado federal Juarez Costa e de sua suplente Juliana Kolankiewicz, ambos oriundos do MDB, além do deputado estadual Dr. Eugênio, ex-PSB, sinaliza um claro movimento de fortalecimento.
Caso Mauro Mendes opte por essa sigla em sua pré-candidatura ao Senado, haverá uma condição implícita e, estratégica: acomodar também a candidatura de sua esposa Virginia Mendes à Câmara Federal. Em política, raramente se negocia apenas o indivíduo; negocia-se o conjunto.
E o efeito dominó já começou. A saída do deputado Coronel Assis rumo ao PL foi apenas o primeiro sinal de que o União Brasil perde tração. A situação se torna ainda mais sensível quando se observa aliados históricos, como Fábio Garcia, hoje licenciado da Câmara para assumir a Casa Civil, e Gisela Simona, que ocupa seu espaço no Congresso.
Diante desse cenário em movimento, uma conclusão se impõe: a decisão de Mauro Mendes não será apenas partidária, será estratégica, quase cirúrgica. Sua saída da Federação União Progressista tende a aprofundar fissuras, inclusive na base de apoio de Pivetta, especialmente dentro do Progressistas, que ficaria dividido entre a fidelidade à federação e o compromisso político já firmado.
O que está em jogo não é apenas uma candidatura, mas o redesenho das forças políticas no Estado. E, como toda boa partida de xadrez, vencerá não quem reagir melhor, mas quem antecipar o próximo movimento.
No fundo, o eleitor já percebe: quando há muitas pedras no caminho, não se trata de evitá-las, mas de decidir quais mover primeiro.
A situação reflete com precisão a Lei 15: “Esmague totalmente o inimigo” não no sentido literal, mas estratégico. Ao permitir que múltiplas candidaturas do mesmo campo prosperem, dilui-se o poder e abre-se espaço para adversários. Também ecoa a Lei 23: “Concentre suas forças”. A fragmentação atual mostra exatamente o oposto: dispersão de capital político, o que, historicamente, cobra seu preço nas urnas.

Ilson Galdino é advogado e servidor público, escreve sobre política para o portal noticia em foco MT
DA REDAÇÃO
