Violência contra a mulher não é caso isolado: é o retrato de um país que falha.
Feminicídios, estupros e agressões seguem crescendo no Brasil. Mesmo com leis avançadas, a cultura machista ainda sustenta a violência.
Nos últimos dias, o Brasil assistiu a uma sucessão de notícias alarmantes envolvendo violência extrema contra mulheres fatos que não deveriam mais chocar, porque infelizmente fazem parte do cotidiano, mas que ainda assim ferem, revoltam e nos obrigam a encarar a realidade de frente.
Um dos casos mais brutais ocorreu no Rio de Janeiro: duas servidoras públicas do CEFET/RJ foram assassinadas a tiros por um colega de trabalho que não aceitava ser chefiado por mulheres.
Em outro estado do país, uma mulher foi arrastada por vários metros enquanto era puxada por um carro conduzido pelo ex-companheiro. As lesões foram tão graves que ela teve as duas pernas amputadas.
Trazendo essa realidade para mais perto: em Rondonópolis (MT), no dia 05 de dezembro de 2025 apenas dois dias antes da mobilização nacional contra a violência de gênero, realizada no dia 07 uma criança indígena de oito anos foi estuprada na zona rural, e o suspeito foi preso em flagrante.
Violência que atravessa o país
Atos de violência extrema, motivados por posse e ódio marcas profundas do machismo que mata. Casos distantes geograficamente, mas iguais em crueldade, revelam que a violência contra a mulher atravessa todo o território nacional.
Ela se manifesta de várias formas: física, sexual, psicológica, moral e patrimonial. É explícita e também silenciosa. É praticada com armas, com palavras, com controle, com humilhação, com abandono, com ódio.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024 o maior número da série histórica. A cada seis minutos, uma mulher é estuprada no país. A cada dia, dezenas sofrem tentativa de feminicídio. Crimes que poderiam ser evitados, mas não são, porque vivemos em uma sociedade que ainda naturaliza a violência de gênero.
Mato Grosso entre os estados mais violentos
Os dados nos estados reforçam o alerta. Mato Grosso, por anos consecutivos, está entre os estados com maiores índices proporcionais de feminicídio. Em 2025, só no primeiro semestre, foram registradas 27 mortes violentas de mulheres apenas por serem mulheres. A maioria dentro de casa o lugar onde deveriam estar mais seguras.
Essa realidade não é casual. Estados como Mato Grosso e Santa Catarina, ambos com altos índices, compartilham características socioculturais profundas: forte influência conservadora, presença de discursos da extrema direita, cultura machista enraizada e a valorização rígida de papéis de gênero, especialmente em áreas rurais.
Nesses ambientes, a submissão feminina ainda é tratada como norma. A autoridade masculina é naturalizada. E políticas de igualdade de gênero são frequentemente ridicularizadas ou atacadas.
A lei existe. A proteção não chega.
O machismo não é apenas comportamento individual ele é estrutural. Está nas famílias, nas escolas, nos campos, nas igrejas e também nos discursos políticos. Ele descredibiliza as denúncias, silencia as vítimas e reforça a ideia de que mulheres devem obediência ou subserviência.
Paradoxalmente, o Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção às mulheres: a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e uma rede de medidas protetivas e políticas públicas.
Mas a lei não tem sido suficiente.
Porque a violência contra a mulher não é apenas um problema jurídico é um problema cultural, estrutural e coletivo.
Não basta punir depois.
É preciso prevenir antes.
É preciso transformar a mentalidade que autoriza, tolera e normaliza essas violências.
Machismo é um pilar do sistema
Enquanto a liberdade da mulher incomodar mais do que uma vida sendo ceifada,
enquanto a independência feminina for vista como afronta,
enquanto o corpo da mulher continuar sendo tratado como propriedade,
enquanto homens não se responsabilizarem e não se engajarem nessa luta,
continuaremos falhando miseravelmente como sociedade.
Não são tragédias isoladas. São fruto de um país que insiste em preservar um modelo onde o machismo é pilar não desvio.
Enquanto discursos públicos minimizarem a violência, enquanto partes do sistema político ridicularizarem a pauta de gênero e transformarem o feminismo em ameaça, continuaremos enterrando mulheres.
A violência contra a mulher não é “caso de polícia”.
É o termômetro moral da nação.
E hoje, o Brasil falha nesse teste.
A mudança exige coragem
A mudança exige mais do que leis exige coragem.
Coragem de enfrentar o machismo institucionalizado.
Coragem de falar sobre política e gênero sem medo do desconforto.
Coragem de responsabilizar quem perpetua discursos de ódio e quem se beneficia da desigualdade.
E, principalmente, exige que os homens façam a parte deles.
Porque enquanto eles permanecerem em silêncio,
a violência continuará gritando.
Thaís Nunes
Advogada – Ativista de Direitos Humanos – Presidente da Associação Centro de Direitos Humanos Dom Helder Câmara