O Brasil reconheceu oficialmente a violência política de gênero ao sancionar a Lei 14.192/2021, que combate agressões físicas, psicológicas, institucionais e digitais contra mulheres no ambiente político. No entanto, reconhecer o problema não é suficiente: é preciso agir.
Transformar indignação em mudança exige coragem para nomear o problema e enfrentá-lo. Geane Lina Teles não é apenas um nome, mas um símbolo da resistência feminina em um sistema que constantemente tenta silenciá-las. Cada vez que a palavra de uma mulher é interrompida, sua autoridade questionada ou sua imagem diminuída, a afronta não é apenas contra ela, mas contra toda a sociedade que depende de uma representação justa e plural.
O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua análise profunda da psique humana, chamou de ressentimento o veneno dos que não suportam ver no outro a coragem que lhes falta. Aqueles que, incapazes de criar, incapazes de agir, reagem transformando sua frustração em ataque. Vivemos uma era perfeita para o ressentido. Ele não constrói. Nietzsche dizia que o ressentido transforma sua fraqueza em virtude, chama sua covardia de prudência, sua paralisia de neutralidade e a sua impotência de sabedoria. Mas, no fundo, o que ele teme é o espelho. Porque no espelho ele veria a sua própria inércia. Essa moral do ressentimento se espalhou nas redes, na política. Pessoas incapazes de construir algo real passam a eleger inimigos, criam os maus para poder se sentir os bons e, com isso, alimentam uma ilusão de superioridade. Um alívio momentâneo para a própria insignificância. Mas há algo ainda mais perigoso: essa mentalidade se multiplica e passa a dominar o discurso público. Os que gritam por moralidade, justiça e virtude, muitas vezes, são os mesmos que destilam ódio. Porque, como dizia Nietzsche, o ressentido precisa moralizar sua fraqueza para sobreviver a ela. O ressentido não suporta ver quem age, porque agir é o que ele não consegue fazer. Então ele se vinga como pode. Não ataque quem age, haja também.
Esse alerta filosófico é, antes de tudo, um convite ao discernimento. Ele nos lembra que ataques direcionados a mulheres que se movem, lideram e transformam não são meros incidentes isolados. São sintomas de uma mentalidade corrosiva, que teme a ação justamente porque vive da paralisia. E, assim, o espaço público é dominado por aqueles que gritam por moralidade enquanto perpetuam injustiças.
A história de Geane Lina Teles nos lembra de algo essencial: o ressentido teme quem age. Porque agir é o que ele não consegue fazer. A resposta para esse ciclo de ataques não está em revidar, mas em agir também.
Lutar contra a violência de gênero, seja ela política, física ou psicológica, exige ação coletiva. É um chamado para que todos nós, como sociedade, nos posicionemos contra a injustiça. Porque cada mulher silenciada representa uma oportunidade perdida de construir um futuro mais justo e igualitário.
Não é suficiente indignar-se. É preciso mobilizar-se. A violência política de gênero não é apenas uma afronta individual; é um ataque sistemático ao direito de toda a sociedade de ser representada por vozes diversas e corajosas.
Geane Lina Teles é um símbolo dessa luta, mas não pode carregá-la sozinha. Cabe a cada um de nós garantir que seu nome e sua história não sejam apagados ou reduzidos a um episódio isolado.
Como sociedade, temos o dever de honrar o legado de mulheres como ela, transformando o silêncio em grito e a indignação em ação. Porque, como Nietzsche nos lembra, o verdadeiro poder está em agir.
Por: Ilso Galdino, Advogado e Servidor Público
DA REDAÇÃO
