A QUARTA DÉCADA
Por: Suziene Cavalcante
Depois da quarta década…
As conversas ficam mais dialéticas…
A visão de mundo, mais ética…
Ah, o poder da madureza!
Depois dos quarenta anos…
As primaveras, em seus ângulos, ficam mais belas desabrochando…
Ah, o poder da profundeza!
O inverno, amigo do agasalho…
Conta-nos segredos irrevelados…
Os cabelos, confidentes grisalhos…
Admoesta-nos em tom sabializado…
Ah, o poder da sutileza!
Não apreciamos mais os atalhos…
A beleza d’um caminho inteiro é mostrado…
Os pés sentem mais o chão, o assoalho…
Ah, o poder da inteireza!
O abraço dos ciclos traz uma paz libertadora…
São de olhos fechados que vemos as belezas mais arrebatadoras…
Passar anos contemplando os segundos, é ação promissora…
Ah, o poder de ser eu!
Vencemos como a prata no crisol…
Com’as flores que se voltam à luz do sol…
O tempo é o mais brilhante farol…
Ah, o tempo é um deus!
Aprendemos apreciar mais a atemporalidade…
Do que propriamente a efemeridade…
Acima das cronologias e convencionalidades…
Ah, o poder do mundo interior!
A vibração estética e psíquica…
São d’uma madureza riquíssima…
Acima do que é ditado nas liças…
Ah, o ser livre, sem penhor!
Falamos bem menos, em tom mais brando…
E percebemos, nisso, mais peso intrínseco que no ouro branco…
Ah, o poder de calar!
O mistério nos veste como a brisa de uma estrela…
O nosso mar se adoça mais que o mel das abelhas…
O ego evolui à unidade-centelha…
Ah, cada mistério decide se revelar!
O amor se torna mais compassivo…
Já não arde, aquece com sentido…
Os vínculos se tornam mais intuitivos…
Tempo: Que sábio professor!
Já não buscamos o fogo breve…
Mas a chama que persiste, suave e leve…
E cada presença ganha um tom mais leve…
Ah, o poder do amor !
A fé já não precisa de moldura…
É vivida em gestos, com brandura…
Ah, o poder das essências!
O sagrado se manifesta na ternura…
Ah, o poder da espiritualidade madura…
Nas consciências!
Já não pedimos provas ao céu…
A alma repousa como um fiel véu…
E tudo em nós canta sem tropel…
Ah, o espírito quando se depura!
Passamos a respeitar todas as formas de crer…
A ética é a bailarina que mais dança em nosso viver…
O respeito ao próximo é o maior sócio do crescer…
Ah, o poder da ternura!
Tempo é um Mestre que burila a alma…
Um portal para a essência que exala…
É uma divindade que orienta e acalma…
Ah, é um eterno-ser!
A sabedoria parece vir de óculos…
Num ápice lírico e filosófico…
As preciosidades mais refinadas do Cosmos…
Passamos a ver!
As décadas nos ensinam, com olhar bonito…
Que a vida não finda, ela se dissolve no infinito…
Como um papel que foi escrito…
E com sua mensagem, o vento o leva, em viagem, às margens dos paraísos!
Ah, eu aprendi isso!
A morte deixa de existir…
São apenas degraus em que as naus irão subir…
Ah, tempiar não é só existir!
O tempo é um evangelho…
Que grava o efêmero e o eterno…
Tem valor pedagógico, tem refrigério… aqui!
Amadurecer é tocar o sublime levemente…
O tempo mentora as consciências que se tornam em auroras, suavemente…
Ah, que bela arte!
O tempo é um sol sutil em chamas…
Uma oferenda de beleza à alma humana…
Sua passagem é um cântico de plenitude que emana…
Ah, emana eternidade!
(Suziene Cavalcante: Poeta brasileira)