A recente decisão de denominar o novo terminal urbano de Rondonópolis como Terminal Rodoviário José Bonifácio de Andrada e Silva reacendeu um debate profundo sobre memória histórica, identidade local e prioridades na aplicação de recursos públicos.
A escolha foi oficializada por meio do projeto de lei 178/2025 de autoria do executivo municipal, aprovado na Câmara Municipal, com a justificativa de homenagear um dos principais nomes da história nacional, considerado o Patrono da Independência do Brasil.
José Bonifácio, estadista e intelectual do período imperial, teve papel central na articulação política que culminou na Independência do Brasil em 1822, sendo reconhecido nacionalmente como uma das figuras mais influentes daquele momento histórico.
No entanto, a homenagem levanta um questionamento legítimo: por que um personagem nacional, sem ligação direta com a história local, foi escolhido em detrimento de nomes que ajudaram a construir Rondonópolis?

Em 11 de abril de 2024, foi aprovado o projeto de lei nº 13.558, de autoria do vereador Investigador Gerson, que autorizou oficialmente a denominação do espaço como: “Terminal Rodoviário Juary Miranda de Moraes”
Apesar da lei existir, na prática o nome não se consolidou como identidade pública do terminal, isto porque o atual gestor resolveu encaminhar para a câmara municipal, outro projeto com vistas a denominar o terminal com o nome de Bonifácio, em detrimento de Juary. O tema voltou ao debate político mais uma vez e sobretudo sobre deixar de reconhecer quem de fato tem uma história ligado diretamente à cidade.
O debate sobre memória local: quem construiu Rondonópolis?
Rondonópolis é uma cidade marcada por pioneiros, técnicos e lideranças comunitárias que contribuíram diretamente para sua formação urbana, econômica e social. Muitos desses nomes permanecem invisíveis na memória pública.
Um exemplo que pode ser citado, é o de Antônio Estolano.
Um nome ligado à história do transporte, Estolano teve papel fundamental na modernização urbana da cidade, especialmente nas áreas de comunicação e mobilidade. Entre suas contribuições atribuídas historicamente, destacam-se:
- Participação direta na implantação das primeiras linhas telefônicas da cidade
- Atuação para viabilizar as primeiras transmissões de televisão em Rondonópolis
- Envolvimento na estruturação do transporte coletivo urbano
- Contribuição para o processo de modernização tecnológica e logística do município
Diante desse histórico, cresce o entendimento de que nomes como o de Estolano possuem ligação direta com a história do transporte — exatamente o setor que o terminal representa.
Além de Antônio Estolano, podemos citar outro personagem que poderia trazer sobretudo para as futuras gerações um estudo e reflexão sobre o legado deixado por eles, citamos aqui: Nelson Pereira Lopes, advogado, conhecido como o “advogado do Povo”, atuava na defesa dos mais humildes, muitas vezes sem cobrar honorários.
A ausência de homenagens a figuras locais alimenta o sentimento de que a memória da cidade ainda não recebeu o reconhecimento proporcional à sua história.
O custo da estátua e o debate sobre prioridades públicas

Custo de R$ 501.008,74, e legado negado a quem construiu a história da cidade
Outro ponto que gerou questionamentos populares foi o valor pago pela estátua em bronze instalada no terminal urbano, que se tornou símbolo visual da homenagem.
A escultura foi apresentada como a primeira estátua em bronze de corpo inteiro produzida em Rondonópolis, sendo destacada como um marco histórico e artístico para o município.
A Prefeitura contratou a confecção do monumento Conforme publicação no Diário Oficial Eletrônico de Rondonópolis, o contrato nº 131/2026 firmado com a empresa FUNDIART – Fundição Artística Ltda, para modelagem tridimensional, fundição em bronze SAE 40, acabamento, transporte especializado e instalação em base de concreto armado.
O valor global da contratação é de R$ 501.008,74, com vigência de 03 de março de 2026 a 29 de agosto de 2026, por meio de Inexigibilidade nº 01/2026. Esse ponto abriu espaço para uma reflexão social legítima:
Seria este o momento adequado para investir em monumentos, quando áreas essenciais como a saúde enfrenta uma série de deficiência e reclamações por parte da população?
A crítica não se concentra apenas na existência da obra, mas além do homenageado, a priorização dos investimentos públicos.
Monumentos ou serviços essenciais? A reflexão sobre prioridades
O debate ganhou força entre moradores e lideranças comunitárias por envolver um tema sensível: o uso de recursos públicos diante das demandas sociais existentes.
Em um município que ainda enfrenta desafios em setores essenciais, como:
- Filas no sistema público de saúde
- Necessidade de melhorias nas unidades básicas de saúde e falta de medicamentos.
surge uma pergunta recorrente:
Qual é o papel simbólico de uma estátua diante da urgência de serviços básicos?
Não se trata de negar a importância da cultura e da memória histórica — mas de discutir o equilíbrio entre simbolismo e necessidade social.
A identidade da cidade e o direito à memória
O nome dado ao terminal e a instalação do monumento trouxeram à tona um tema maior:
a construção da identidade histórica de Rondonópolis.
Cidades que valorizam sua própria história geralmente fazem isso através da memória coletiva — homenageando:
- Pioneiros locais
- Educadores
- Profissionais da saúde
- Comunicadores
- Lideranças comunitárias
Nesse contexto, cresce a defesa por um processo participativo, onde a população tenha voz nas decisões sobre homenagens públicas.

Um debate que vai além do nome do terminal
A escolha de homenagear José Bonifácio — figura central da história nacional — não é, por si só, inadequada do ponto de vista histórico.
Mas o episódio revela algo maior: A necessidade de reconhecer quem construiu a história local.
A história de uma cidade não se constrói apenas com grandes nomes nacionais — ela se constrói com o esforço diário de pessoas que viveram, trabalharam e contribuíram diretamente para o seu crescimento.
Rondonópolis possui uma história rica, marcada por personagens que ajudaram a estruturar seus serviços, suas comunicações e seu transporte urbano.
Reconhecer figuras como Antônio Estolano e outros pioneiros locais não é apenas um gesto simbólico — é um ato de justiça histórica.
Ao mesmo tempo, o debate sobre o custo da estátua reforça a necessidade de refletir sobre onde e como o dinheiro público deve ser investido.
DA REDAÇÃO
