Rondonópolis pode eleger até sete deputados ou a cidade está confundindo representatividade política com força regional?
Rondonópolis tem tamanho, eleitorado e peso político para influenciar os rumos de Mato Grosso. A questão que se impõe, porém, vai além da força das urnas. O que está em debate não é apenas quantos deputados a cidade pode ajudar a eleger, mas que tipo de representação deseja construir dentro da Assembleia Legislativa.
Com 177.492 eleitores aptos, o município reúne um dos maiores colégios eleitorais do Estado e carrega, naturalmente, a expectativa de ampliar sua presença nos espaços de poder. A ideia seduz porque conversa com um sentimento legítimo do eleitor. Se a cidade é grande, produz, arrecada e movimenta a economia, por que não transformar esse peso em mais cadeiras e mais influência institucional.
Foi exatamente nesse ponto que a declaração do pré-candidato a deputado estadual pelo PL, Zé Márcio Guedes, ganhou força. Em entrevista ao podcast Primeira Hora Cast, apresentado pelo jornalista Lucas Perrone, ele afirmou que Rondonópolis teria votos suficientes para eleger até sete deputados estaduais, desde que o eleitorado priorizasse candidatos da própria cidade e reduzisse a dispersão de votos, a abstenção, os brancos e os nulos.
A fala é forte, provoca adesão imediata e aciona uma percepção que muitos moradores já carregam. A de que Rondonópolis, apesar da relevância que possui, ainda vota abaixo do próprio potencial quando o assunto é representação estadual.
Os números ajudam a entender por que essa tese encontra eco. Nas eleições de 2022, deputados estaduais que tinham Rondonópolis como uma de suas principais bases precisaram buscar parte significativa de seus votos fora do município para conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Cláudio Ferreira recebeu 21.702 votos na cidade e somou outros 4.532 em diferentes municípios. Nininho conquistou 9.856 votos em Rondonópolis, mas alcançou 50.875 votos com o apoio de outras regiões do Estado, onde obteve mais 41.019. Sebastião Rezende recebeu 2.663 votos no município e outros 34.256 fora dele, totalizando 36.919. Thiago Silva teve 12.999 votos em Rondonópolis e mais 17.507 em outras cidades, chegando a 30.506.
Para Zé Márcio, esses dados sustentam uma conclusão incômoda. Mesmo quando a cidade ajuda a eleger nomes com identidade local, esses mandatos passam a ser compartilhados com interesses espalhados por várias regiões de Mato Grosso. Na leitura dele, isso reduz a capacidade de dedicação mais concentrada às demandas de Rondonópolis, já que o parlamentar precisa responder politicamente a diferentes bases que contribuíram para sua vitória.
O raciocínio tem lógica e, sob certo aspecto, traduz o que muitos eleitores sentem. Quem vota quer ser visto, ouvido e lembrado. Quer perceber que sua cidade não apenas participa da eleição, mas influencia concretamente as decisões. E é justamente aí que a tese ganha densidade emocional e política.
Segundo o pré-candidato, a conta não envolve apenas os votos já dados aos candidatos locais. Ela também considera o contingente de eleitores que se abstiveram, anularam o voto, optaram pelo branco ou escolheram nomes sem vínculo político direto com Rondonópolis. Na avaliação dele, parte desse universo poderia ser convertida em força local competitiva, ampliando de modo expressivo a presença do município na Assembleia Legislativa.
Mas a discussão não se encerra na matemática. Ela avança para um ponto mais profundo e delicado da democracia brasileira. Afinal, um deputado estadual deve representar prioritariamente sua base eleitoral ou o Estado como um todo.
É nesse momento que entra o contraponto do advogado, servidor público e analista político Ilson Galdino, que reconhece a legitimidade da discussão, mas chama atenção para os limites e para a natureza do sistema eleitoral brasileiro.
Segundo ele, os deputados estaduais não são eleitos para representar apenas cidades específicas, mas o conjunto da população mato-grossense. Mato Grosso possui 142 municípios e apenas 24 cadeiras na Assembleia Legislativa. Em termos objetivos, isso significa que é impossível garantir representação direta para cada cidade.
Ainda que todos os municípios desejassem eleger nomes próprios, o desenho institucional não comportaria essa expectativa. O sistema proporcional foi concebido justamente para permitir que parlamentares representem regiões inteiras e diferentes segmentos da sociedade, independentemente do município onde concentraram sua maior votação.
Na avaliação de Galdino, é natural que uma cidade do porte de Rondonópolis queira ampliar sua força política. O problema começa quando o debate sugere que cada município deveria eleger apenas os seus. Se essa lógica se tornar dominante, uma eleição estadual corre o risco de se transformar em uma disputa territorial, enfraquecendo a visão mais ampla que o mandato exige.
O analista também observa um dado que costuma escapar das discussões mais emocionais. Muitos municípios mato-grossenses não possuem lideranças competitivas nem densidade eleitoral suficiente para levar um nome à Assembleia. Nesses casos, a representação acaba ocorrendo por meio de parlamentares eleitos em polos regionais mais fortes, como Cuiabá, Várzea Grande, Sorriso, Sinop e a própria Rondonópolis.
Na prática, é assim que boa parte do Estado funciona. A maioria dos municípios não possui representação direta por meio de deputados eleitos exclusivamente em suas cidades. Essas localidades dependem, em grande medida, de parlamentares que concentram votos em centros regionais mais populosos e economicamente influentes.
Isso não anula a tese de Zé Márcio. Ao contrário. Galdino reconhece que ela se apoia em um ponto incontestável. Quanto maior a capacidade de uma cidade concentrar votos em lideranças locais competitivas, maior tende a ser seu peso político nas negociações institucionais e na disputa por investimentos públicos. Em outras palavras, a cidade que organiza melhor sua força eleitoral normalmente fala mais alto quando os recursos, as prioridades e as obras entram na pauta.
É justamente aí que a reflexão amadurece. O debate não opõe certo e errado. Ele coloca frente a frente duas verdades políticas que convivem em tensão. De um lado, a busca legítima por mais protagonismo regional. De outro, a defesa igualmente legítima de que o mandato estadual pertence a todo Mato Grosso, e não apenas a um município específico.
O que Rondonópolis precisa decidir não é apenas quantos deputados pode eleger, mas qual projeto de influência deseja construir. Concentrar votos em candidatos locais pode, sim, fortalecer a presença do município na Assembleia e ampliar sua capacidade de pressão política. Mas esse movimento só fará sentido se vier acompanhado de visão pública, compromisso institucional e capacidade de dialogar com o Estado inteiro.
O eleitor, no fim das contas, não escolhe apenas um nome. Escolhe uma lógica de representação. Escolhe se quer apostar na força concentrada da cidade ou em lideranças com alcance estadual mais amplo. Escolhe, sobretudo, que tipo de voz deseja dar a Rondonópolis dentro do jogo democrático.
A fala de Zé Márcio cumpre um papel importante porque tira o debate da superfície e o coloca no lugar certo. O lugar da responsabilidade cívica, da participação consciente e da compreensão de que voto não é apenas apoio. Voto é estratégia, direção e consequência.
Rondonópolis tem força para ampliar sua influência política. Isso os números já provaram. O que ainda está em aberto é o caminho para transformar essa força em representação eficiente, equilibrada e duradoura. E essa resposta, como acontece nas democracias maduras, não nasce apenas da aritmética eleitoral. Nasce do discernimento do eleitor.
Por: Ilso Galdino – advogado e ServidorPúblico
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